Em Poços de Caldas, desde o seu início, tivemos pessoas e acontecimentos que demonstraram seu pioneirismo.
Em 1º de setembro de 1898, era inaugurada a primeira usina hidrelétrica da cidade, por Octaviano Ferreira de Brito, na Cascata das Antas. Esta usina, era capaz de acender 150 lâmpadas nas ruas e iluminar as 332 casas existentes na cidade. Caso você não saiba, a primeira usina hidrelétrica do mundo foi inaugurada em 30 de setembro de 1882, em Appleton, Wisconsin, nos Estados Unidos. A usina, construída no rio Fox, foi impulsionada por Thomas Edison para atender à crescente demanda por energia elétrica na época. Então, apenas 16 anos após a inauguração da primeira usina hidrelétrica do mundo, Poços de Caldas fazia o mesmo feito, uma pequena cidade do interior do Brasil, que havia sido fundada em 1872.
O Departamento Municipal de Eletricidade foi criado em 9 de dezembro de 1954, pelo prefeito Martinho de Freitas Mourão, tendo sua concessão outorgada em 12 de julho de 1955, pelo então presidente, Juscelino Kubitschek. E no decorrer dos anos, várias outras usinas hidrelétricas foram inauguradas em Poços de Caldas, como a da Represa Bortolan, em 1956; a Engenheiro Ubirajara Machado de Moraes, Véu das Noivas, em 1985; a José Togni, Usina Bortolan, em 1988; a Walther Rossi, Antas II, em 1998; e a do Cipó, em 1999. E desde 2003, o DME colocou em funcionamento três subestações na cidade: Saturnino, Interligação e Osório.

Nossa primeira usina hidrelétrica é hoje ruínas. Parte belíssima do cenário da Cascata das Antas, atualmente é abraçada por várias árvores e se tornou um atrativo turístico imperdível!

Uma pessoa que demonstrou grande pioneirismo na sua forma de gerir, foi David Benedicto Ottoni. Médico, bisneto de Teófilo Ottoni, uma família de grandes personalidades progressistas, foi prefeito interino por 17 dias, em 1905. É que o prefeito que havia sido nomeado, Jucelino Barbosa, precisava de um tempo para se desligar do cargo que ocupava, quando foi chamado. Durante esses poucos dias, fez mais do que muitos prefeitos fazem hoje em quatro anos. Ele desenhou o Plano de Avenidas e Parques, desapropriou a Serra de São Domingos da família Junqueira, local onde havia uma roça de milho. Sim, aquela bela mata só existe por conta dessa desapropriação. E incrivelmente, pensou em uma rodovia do contorno para a cidade, em uma época em que malemá existiam automóveis. Sim, ele era visionário.


Outra coisa que se pensou nessa Poços de Caldas que nascia, foi o planejamento urbano. Coisa difícil de se ver no início de cidades, que geralmente possuem seus centros históricos com ruas apertadas, desordenadas e calçadas estreitas. Tivemos a presença aqui de grandes construtores e arquitetos que tinham vindo do Velho Mundo e contribuíram significativamente na cidade. Entre eles: Irmãos Piffer, Vicenzo Zuanella, Joaquim Pereira, Carlos Maywald e Giovanni (ou João) Batista Pansini. Muito mais que trazer a influência da arquitetura europeia para casas, chalés e prédios públicos, deixaram aqui obras de planejamento urbano, como ruas ortogonais, de 18 metros de largura, sendo 6 metros de cada calçada, e 6 metros de rua em si, rios retificados, áreas verdes e grandes avenidas. Coisas que eram raras de ser ver no Brasil, naquela época. Um exemplo interessante são as estruturas que foram feitas nos ribeirões de Caldas e da Serra, que cortam a cidade. Cada item ali tem uma função: a passarela de concreto nas laterais para se realizar manutenções, a parte de grama logo acima para que a água da chuva pudesse infiltrar, os arbustos já na parte de cima, na altura da calçada, para que quando chovesse, houvesse uma barreira para a sujeira. Uma espécie de filtro para a água que iria para os ribeirões. Sim, os arbustos tinham mais que uma função estética! Obras que beneficiam a população até os dias atuais.


Não podemos falar de pioneirismo em Poços de Caldas, sem lembrar do visionário Pedro Sanches de Lemos. Nascido em São Gonçalo do Sapucaí, Minas Gerais, formou-se na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro em 1872, e decidiu exercer sua profissão (ou missão) no recém criado distrito de Nossa Senhora da Saúde das Águas de Caldas, que se tornaria Poços de Caldas posteriormente, chegando aqui em 1873. No seu busto na lateral do Palace Hotel, está escrito “Sciencia e Bondade”. Definitivamente palavras que o definem bem. Seu apelido era Pirilampo da Caridade, pois não cobrava de quem era da cidade e nem dos pobres, só de quem vinha de outros locais. Além disso, fazia uma coisa impensável para aquela época (e talvez para hoje também). Praticava a medicina preventiva, montando sua mula e percorrendo as fazendas do entorno, consultando a todos, sem distinção: fazendeiros, empregados e escravos. Sem ter sido chamado, sem cobrar nada. Em uma época em que não existia SUS e o acesso a tratamentos médicos era tão difícil e custoso, essa atitude era definitivamente louvável! Não bastasse isso, era incansável o seu desejo de desenvolver Poços de Caldas enquanto estância balneária, comparada às europeias. Por isso, em 1902, viajou à Europa, e passou três meses por França, Suiça e Alemanha. Percorreu as principais cidades balneárias de lá, estudando as propriedades das águas termais, as estruturas dos balneários e a dinâmica dessas cidades. Em seu retorno, escreveu um pequeno livro: “Notas de viagem – Na Allemanha, Na Suissa, Na França”. Percebeu que nessas cidades havia muitos parques, praças e jardins. E retornou com uma teoria: terapia da paisagem, onde dizia que o ambiente influenciava na recuperação da saúde. Ou seja, não era só o tratamento com as águas dentro dos balneários, mas arborização e ar puro também contribuíam para um tratamento mais efetivo. Sempre digo que, hoje isso nos parece um pouco óbvio, mas estamos falando do início do século XX.

O médico é considerado o Pai da Crenologia no Brasil. Pedro Sanches, faleceu em 1915, e não pode ver como Poços de Caldas se transformou na década de 1930, com a inauguração de Thermas, Palace Hotel, Palace Casino e o Parque José Affonso Junqueira. Mas com certeza, suas ideias contribuíram significativamente pelo desenvolvimento que a cidade atingiu. No Museu Histórico e Geográfico, você pode ver na Sala dos Médicos, móveis, objetos de trabalho e livros de Pedro Sanches e de David Benedicto Ottoni.

Tivemos várias outras pessoas que fizeram a diferença em Poços de Caldas, que construíram, desenvolveram, criaram, mudaram. Infelizmente, nos últimos tempos, o que vemos na cidade, é um descuido e uma falta de visão que chegam a doer. Difícil pensar que, uma Poços de Caldas que um dia foi tanto, hoje vegeta em tantos aspectos.
Talitha Castro

Sou Administradora e Guia de Turismo, nascida em Poços de Caldas, Minas Gerais e, apaixonada pela exuberância natural, cultural e patrimonial da região.
